Moscou Contra 007: Lá e de Volta Outra Vez
O que temos diante de nós não é meramente uma fita de cinematógrafo destinada ao deleite das massas iletradas que buscam o entorpecimento nos subúrbios de Londres ou Paris. Trata-se, antes, de uma coreografia de sombras, uma sinfonia de espionagem que, embora se pretenda moderna com seus engenhos mecânicos e tramas geopolíticas, exala o odor arcaico e fascinante das tragédias gregas transpostas para o aço dos comboios ferroviários. O diretor Terence Young, agindo como um *maestro* que rege uma orquestra de percussões metálicas, conduz-nos por um labirinto onde o *hedonismo* e a *morte* dançam um *minueto* perigoso.
James Bond, interpretado por Sean Connery — um homem cuja presença física possui a solidez de uma escultura de Rodin e a agilidade predatória de um leopardo das neves —, é o arquétipo do dândi marcial. Há nele uma ambivalência que o aproxima mais dos heróis de Lord Byron do que dos burocratas de escritório. Ele é o esteta do perigo, o sommelier da violência. Note-se a precisão com que ele ajusta o nó de sua gravata antes de desferir um golpe fatal; há ali uma compreensão profunda de que a civilização é apenas uma fina película de verniz sobre o abismo da barbárie. Schopenhauer, em sua lucidez pessimista, certamente veria em Bond a manifestação pura da *Vontade*, um ímpeto que não busca a paz, mas a afirmação da própria existência através do conflito e da conquista.
A trama, urdida pelas mãos invisíveis da organização S.P.E.C.T.R.E. — uma entidade que mimetiza as sociedades secretas que tanto assombram o imaginário da nossa *alta sociedade* —, é de uma simplicidade quase clássica. O roubo da máquina *Lektor* não passa de um pretexto, um *MacGuffin* hitchcockiano, para que se desenrole um jogo de xadrez de proporções continentais. E, por falar em xadrez, a sequência inicial, onde o mestre Kronsteen vence uma partida sob a égide de uma tensão palpável, é uma ode à inteligência fria. Ali, a vida humana é tratada com a mesma desimportância de um peão sacrificado em prol de um xeque-mate geopolítico. É a estética da indiferença elevada à categoria de arte.
A jornada nos conduz a Istambul, a Bizâncio de outrora, o umbral entre o Ocidente racionalista e o Oriente místico e insondável. A cinematografia captura a cidade com a riqueza de uma tela de Delacroix. Entre os bazares e as cisternas subterrâneas, Bond move-se com a segurança de quem conhece os vinhos e os venenos. A introdução da Srta. Tatiana Romanova, vivida pela deslumbrante Daniela Bianchi, evoca a *femme fatale* das baladas de Baudelaire. Ela é a "Beleza que em seus olhos traz o inferno e o céu", uma jovem que, embora prisioneira dos mecanismos do Estado, busca na figura do agente britânico uma redenção que talvez seja apenas uma miragem romântica.
Entretanto, o verdadeiro triunfo desta película reside em seus antagonistas, pois um herói é apenas tão grande quanto a sombra que se opõe a ele. Rosa Klebb, interpretada por Lotte Lenya com uma austeridade que beira o grotesco, é a encarnação da frigidez ideológica. Ela é o antípoda da sensualidade, a mulher que trocou o perfume pelo aço das botas pontiagudas. E o que dizer de Red Grant, o assassino loiro que personifica o "super-homem" nietzschiano em sua versão mais vulgar e letal? O confronto final entre Bond e Grant, nos limites claustrofóbicos de uma cabine do *Expresso do Oriente*, é uma peça de teatro de crueldade. É um embate entre o *savoir-faire* aristocrático e a força bruta proletária. Ali, entre o tilintar de pratas e o luxo decadente do comboio, a morte não é um conceito abstrato, mas o suor e o sangue que mancham o linho fino.
Permitam-me uma breve digressão sarcástica: é quase tocante ver como a tecnologia do futuro — a maleta de trucagens, o gravador de fita — é apresentada com a reverência que um monge dedica a uma relíquia sagrada. Para nós, que apreciamos a perenidade de uma pena de ouro e a solidez de um relógio de bolso suíço, tais bugigangas parecem distrações infantis. Contudo, não se pode negar que elas servem para sublinhar a solidão do espião moderno, um homem que depende mais de sua engenhosidade e de seus instrumentos do que de sua alma.
A trilha sonora de John Barry, embora careça da complexidade contrapontística de um Bach ou da exuberância trágica de um Wagner, possui uma eficácia cinematográfica inegável. O tema principal, com seus metais estridentes e cordas urgentes, é como um galope que acelera as batidas do coração, preparando o espectador para a iminência do desastre ou da glória. É música para ser consumida com a mesma rapidez que um *cocktail* Dry Martini — batido, não mexido, como dita a afetação do protagonista, que se recusa a aceitar a diluição do gim, preferindo a pureza da agressão etílica.
"Moscou Contra 007" é, em última análise, um retrato da nossa própria condição humana, projetada em uma tela de prata. Somos todos passageiros desse comboio em direção ao desconhecido, flertando com o perigo em compartimentos luxuosos, enquanto, do lado de fora, as estepes gélidas da história nos observam com indiferença. O filme é um triunfo do estilo sobre a substância, mas que estilo! É a elegância do carrasco, a polidez do duelo ao amanhecer.
Comentários
Postar um comentário