O Livro de Êxodo Criptografado em Technicolor: A Imortalidade de 'Os Dez Mandamentos'
Cecil B. DeMille nunca fez um filme; ele *forjou* um mito. Lançado em 1956, com a América a equilibrar-se entre a moralidade conservadora do pós-guerra e a explosão de um novo futuro tecnológico, *Os Dez Mandamentos* não foi apenas um sucesso de bilheteira; é um artefato de nossa memória cultural coletiva, um ponto de costura onde a fé e o espetáculo de Hollywood se encontram para reescrever as fundações da civilização ocidental, DeMille, o grande mestre-de-cerimónias do melodrama bíblico, não estava interessado na quietude da psicologia humana. Ele buscava a dimensão da ópera, a vastidão da tela. A sua direção é a de um artista que usa o deserto como tela e os milhares de figurantes como pinceladas de escala impossível. Este filme não é sutil; é grandioso. É uma peça que exige ser vista como a declaração definitiva de Hollywood sobre o poder da fé e a busca incessante pela liberdade, A verdadeira força dramática, contudo, reside no confronto visceral e pessoal entre Moisés (Charlton Heston) e o Faraó Ramsés II (Yul Brynner). Esta não é uma mera rivalidade militar ou política; é uma batalha de silhuetas reais o torso musculado e o olhar ascético de Heston contra a calvície régia, a postura cínica e a sensualidade controlada de Brynner. Os dois atores, com a sua dicção teatral e porte real, tecem um *têxtil dramático* sustentado pela rivalidade fraterna, um cabo de guerra entre o cinismo do poder e a luz, por vezes cruel, da revelação. É o coração pulsante que sustenta a sua colossal duração, Mas o que cimenta a obra na imortalidade da cultura pop, e por que a revista The New Yorker ainda hoje o cita, é o espetáculo dos milagres. A recriação das Pragas do Egito, filmada com uma paleta de cores tão saturadas que beira o onírico, é a assinatura de DeMille. O auge, no entanto, é a Abertura do Mar Vermelho. Não é apenas um truque de ótica; é a manifestação de um *poder que destrói o cenário e reescreve a geografia*. É o ápice do espetáculo religioso, a prova de que o cinema, em sua forma mais ambiciosa, pode ser um pulpito. A cena é uma coreografia de água e efeitos práticos que, mesmo para os padrões atuais, possui uma majestade que não pode ser replicada pela facilidade do CGI moderno, Na sua essência, este épico é um hino à liberdade. Moisés, ao trocar o luxo egípcio e a sedução do poder pela identidade escrava e uma fé desconhecida, assume a *pesada veste* da profecia. A sua jornada é a transição da ambição palaciana para a *dura fundação* da lei moral. Ao entregar os Dez Mandamentos no Monte Sinai, o filme faz uma declaração atemporal: o êxodo não é apenas uma fuga geográfica, mas o nascimento de uma nação ligada a um código de conduta que perdura no tempo, uma declaração sobre a primazia da Lei sobre o Homem, Sim, o diálogo pode ser por vezes tão pesado quanto os pilares de Karnak, e as quase quatro horas exigem dedicação. Mas a sua ambição não tem limites. Os Dez Mandamentos é a prova de que a escala, quando casada com uma paixão inabalável pela história, transcende a própria tecnologia. É um *monumento ao espetáculo*, um filme que, ao tentar ser grande, alcançou a imortalidade do mito, e continua a ser, sessenta anos depois, uma força cultural a ser considerada.
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