Em 1962, o cinema não apenas encontrou um novo herói; ele cunhou uma moeda cultural. A estreia de 007 Contra o Satânico Dr. No, sob a direção afiada de Terence Young, não é um simples primeiro passo; é o inicio do escapismo para fins de entretenimento, o que me agarra de imediato nesta obra, o que a torna um objeto de estudo cultural tão rico, é a sua confiança bruta. Não há espaço para a hesitação no mundo de James Bond. O momento da introdução é talvez o trecho de diálogo mais eficiente da história: "Bond. James Bond." Proferido pelo jovem, mas já incrivelmente letal, Sean Connery, encapsula a elegância implacável do agente.
A performance de Connery é o motor que move esta máquina. Ele é fisicamente ameaçador, mas perfeitamente à vontade em um *smoking*. Ele não precisava dos *gadgets* excessivos que o futuro traria. Sua arma era o cérebro, a precisão do seu Walther PPK, e o magnetismo sedutor que fazia o público se sentir cúmplice de cada assassinato. O filme é um *thriller* de espionagem sóbrio, quase espartano em sua eficiência, mais próximo da realidade áspera e desconfiada dos romances de Ian Fleming do que da fantasia de parque temático que se seguiria. A estética é a sua armadura; o apreço pelo Dom Pérignon e o vestuário impecável são símbolos de um controle que mal esconde a sua licença para matar, Dr. No estabeleceu o ritmo narrativo que o cinema de ação ainda segue, o gunbarrel sequence, o inconfundível tema de Monty Norman, a presença fria e burocrática de M e a calorosa, mas inalcançável, Miss Moneypenny todos elementos de um ritual que se tornaria tão reconfortante quanto explosivo.

E ainda temos a famosa sequência onde Ursula Andress interpretando Honey Ryder sai do mar, ela é uma miragem cinematográfica, quase um manifesto de moda de praia, que instantaneamente se tornou o padrão ouro da Bond Girl. E, claro, há o vilão. O Doutor Julius No, interpretado com uma calma gélida por Joseph Wiseman, é a perfeita antítese do herói. Um cientista sino-alemão com mãos biônicas de metal, ele representa a ameaça tecnológica não-estatal que se tornaria a marca registrada da SPECTRE. O design do seu covil não é apenas decoração; é um teatro de megalomania, com aquários gigantescos e tecnologia nuclear que estabeleceu o *blueprint* para todo o supervilão que viria a seguir, transformando o mal em uma operação corporativa e fria. a fraqueza que a crítica moderna aponta a simplicidade do enredo em comparação com os épicos futuros é, na verdade, a sua força motriz. Essa simplicidade permite que o filme se concentre na atmosfera e, crucialmente, na introdução inesquecível do herói. Dr. No fez história não por ter sido o mais complexo, mas por ter sido corajoso o suficiente para ser diferente, sexy e letal desde o primeiro fotograma. É o mapa que nos mostra a origem da lenda.
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