Moscou Contra 007: Quando o Mito James Bond Encontrou a Frieza Geopolítica
Se a aventura inicial, *Dr. No*, foi o vislumbre eletrizante do que estava por vir, desde o acender do primeiro cigarro até a primeira cartada no bacará, mas foi com Moscou Contra 007 que Ian Fleming e a EON construíram o cânone, a fundação sólida sobre a qual o cinema de espionagem se ergueria. A Guerra Fria é o motor visceral que move a trama, a ameaça da SMERSH é fria, calculada e perigosamente real e que quer humilhar e assassinar um agente, numa jogada geopolítica que tem mais a ver com xadrez no Kremlin do que com laser beams na Suíça, desprovida da megalomania caricata que viria a dominar a franquia. A SMERSH não quer dominar o mundo; ela . É a arquitetura perfeita de um suspense, a beleza desta obra reside na forma como a traição se move pelas sombras, tecida pelas mãos frias da SPECTRE, que aqui surge como a força espectral por trás dos acontecimentos, e pela inesquecível Rosa Klebb de Lotte Lenya, Donald 'Red' Grant, na pele psicopata e elegante de Robert Shaw que é a sombra brutal de 007, o reflexo distorcido e desumano do nosso herói, um assassino com olhos inexpressivos.
O confronto entre os dois no Expresso do Oriente é uma aula do cinema de ação, longe das grandes explosões, a luta é um embate corpo a corpo, desesperador, onde a maleta da Q Branch com seus gadgets ainda discretos e práticos (faca, gás lacrimogêneo), o primeiro vislumbre da tecnologia de Bond funciona como uma arma de teatro em uma encenação de vida ou morte. É um momento de cinema que faz o coração da audiência acelerar, não por grandiosidade, mas por terror confinado.
A cinematografia de Ted Moore banha Istambul em uma paleta de cores ricas e sombras dramáticas que flertam com o estilo *noir*. A cidade é um labirinto, um terceiro personagem que acentua a solidão e a precariedade de Bond. É a arte visual servindo à narrativa: a escuridão reflete a moral ambígua da Bond Girl, que não é um acessório, mas uma peça essencial (e potencialmente letal) do tabuleiro, Moscou Contra 007 consegue equilibrar o charme irresistível de Sean Connery com uma inteligência narrativa que agrada tanto ao grande público quanto aos intelectuais da Cahiers Du Cinéma. Não é apenas um excelente filme de James Bond, mas um excelente filme e um marco fundamental que moldou o cinema de espionagem. A cena final, com a bota-lâmina de Rosa Klebb, é um toque de terror físico e cômico que sela a obra na memória, deixando uma marca duradoura e inesquecível na história da cultura pop.
Por Ian Hunt Mayweather.
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