A Elegância do Fim Oriundo de uma Ótima Vingança Estatal Provocada por Georges Lautner e Atuada por Bebel
A Elegância do Fim: 'O Profissional' e a Geometria da Vingança Estatal
Texto por
Natan Vinicius
Georges Lautner e Belmondo orquestram um *thriller* que transcende o gênero para se tornar um estudo melancólico sobre a traição e o estilo como resistência final.
Existe uma certa injustiça histórica na forma como *Le Professionnel* (1981) é frequentemente categorizado. Reduzi-lo a um mero *policier* de ação estrelado pela inimitável fisicalidade de Jean-Paul Belmondo é negligenciar a profundidade estrutural e a frieza existencial que Georges Lautner injeta em cada quadro. Longe do otimismo e da liberdade formal da *Nouvelle Vague*, mas carregando o peso temático do desengano político dos anos 70, o filme se estabelece como uma elegia visual sobre o agente transformado em alvo, um peão descartado que decide, pela última vez, controlar a coreografia de seu próprio fim.
Josselin Beaumont, interpretado por um Belmondo no auge de seu carisma cínico, não é um herói; ele é uma ferramenta quebrada. A sequência de abertura em Madagascar, filmada com uma austeridade quase bressoniana – luz chapada, campos abertos que enfatizam a solidão do indivíduo contra a vastidão da opressão – serve como um manifesto. O agente é traído, preso e, em seguida, escapa, mas a fuga é apenas o catalisador para a vingança, não para a redenção. A traição não é pessoal, mas institucional: o Estado, a Máfia racionalizada, decide que a missão de Beaumont de eliminar o líder de Malagawi deve ser abortada por razões geopolíticas. O filme, assim, se torna um comentário brutal sobre a hipocrisia das relações internacionais, onde a moralidade é apenas uma variável mutável na equação do poder.
A *mise-en-scène* de Lautner opera em contraste deliberado. Enquanto os filmes de Melville utilizavam o *noir* como um estudo de geometria moral em espaços fechados e chuvosos, Lautner opta pela geometria da frieza burocrática e urbana. Paris é filmada não como a cidade do romance, mas como um labirinto de escritórios ministeriais estéreis, corredores longos e apartamentos burgueses que sufocam. O contraste entre o calor e o poeirento exílio africano e o cinza polido do poder francês sublinha a transição de Beaumont de um operativo pragmático para um fantasma vingativo que perturba a ordem estabelecida. Ele não usa armas para matar, mas sim para desmoralizar e expor a podridão interna.
O trabalho de câmera é preciso e implacável. Lautner evita a câmera na mão e os *zooms* excessivos da época, preferindo enquadramentos fixos que capturam a inevitabilidade das ações. O General Touvier (Robert Hossein) e o Comissário Rosen (Jean Desailly) são sempre apresentados em composições que os diminuem, apesar de seu poder nominal, pois a verdadeira ameaça que representam é sistêmica e invisível. A ação, embora abundante, nunca é gratuita. Cada perseguição de carro pelas ruas de Paris, cada confronto físico, é pontuada por uma melancolia profunda. Belmondo realiza seus *stunts* com uma desenvoltura que confere peso e autenticidade à ameaça que ele representa, mas há sempre um vislumbre de cansaço em seus olhos, uma aceitação do destino que ele próprio desenhou.
E então, há a música. A trilha sonora de Ennio Morricone, especialmente o tema 'Chi Mai', eleva o filme de um mero *thriller* para uma tragédia operática. 'Chi Mai' não é apenas música de fundo; é o subtexto lírico da morte iminente de Beaumont. A melodia, repetitiva e dolorosamente bela, é injetada nos momentos de maior tensão e introspecção, agindo como um coro grego que lamenta a perda da inocência e a fatalidade do confronto. A famosa cena do reencontro entre Beaumont e sua ex-amante, onde o tema explode, não é sobre o amor reacendido, mas sobre o adeus iminente. A música transforma o profissional em um mártir da estilística.
O clímax é o ápice da filosofia do filme. Beaumont está em uma posição onde ele pode fugir, pode desaparecer, mas ele opta por caminhar em direção ao palácio presidencial, expondo-se de forma espetacularmente pública. Esta não é uma tentativa de assassinato impulsiva; é um ato performático de resistência, um suicídio estético. O longo e lento caminhar de Beaumont através do gramado, sob a mira dos atiradores de Touvier, é uma das imagens mais poderosas do cinema francês pós-Melville. Ele está caminhando em direção ao que sabe ser seu fim, mas ao fazê-lo, ele garante que sua morte seja uma declaração, e não um segredo sujo do Estado.
*Le Professionnel* é, em última análise, uma meditação sobre a liberdade final que resta ao homem traído: a liberdade de escolher a forma de sua própria aniquilação. Belmondo não apenas atua, ele *é* a personificação desse estilo existencialista, um ícone que usa a própria ação como um comentário político. É um filme essencial para entender a transição do herói de ação da *Nouvelle Vague* para o anti-herói melancólico dos anos 80, um trabalho que merece ser reavaliado não apenas pela adrenalina, mas pelo seu rigor formal e sua tristeza implacável.
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