Cidadão Kane: Não pelos Olhos de um Homem mais Pelos de sua Volta
A Arquitetura Fragmentada da Ambição Americana
Éum paradoxo central à crítica moderna que uma obra tão visceralmente visual quanto ‘Citizen Kane’ (1941) permaneça, em sua essência, um dos mais profundos e complexos textos literários do século XX. Não falo apenas do brilhantismo da carpintaria cênica de Orson Welles, mas da engenharia narrativa concebida por Herman J. Mankiewicz e Welles, um roteiro que desafia a cronologia linear e a própria noção de biografia monolítica. O texto, lido friamente, é um tratado sobre a falência da promessa americana e a impossibilidade hermenêutica de conhecer verdadeiramente o ‘eu’ alheio.
A prosa, se pudermos assim chamar a arquitetura dialogada do roteiro, é de uma precisão lapidar, embora sua verdadeira potência resida na sua estrutura não-euclidiana. A vida de Charles Foster Kane, o magnata da imprensa, não é apresentada como um arco clássico, mas como uma série de fragmentos de vidro opaco, cada um refletido através da lente distorcida de um narrador distinto: a frieza interesseira de Bernstein, a lealdade resignada de Leland, a histeria possessiva de Susan Alexander. Esta técnica de múltiplas perspectivas, prenunciando o modernismo tardio, transforma a busca do repórter Thompson por ‘Rosebud’ não em uma investigação jornalística, mas em uma empreitada metafísica. O texto argumenta que a verdade histórica é inerentemente evasiva, submetida sempre ao viés da memória e ao interesse do contador de histórias.
Os temas centrais orbitam em torno da corrosão do ideal. Kane começa como um paladino da democracia, um idealista que promete defender os interesses dos desfavorecidos. Sua queda não é dramática; é um lento e inevitável processo de interiorização da própria doença que ele pretendia curar: a megalomania do capital desregulado. O poder, para Kane, não é um meio, mas um fim patológico, um substituto para a afeição que lhe foi negada na infância gelada. Ele tenta comprar amor (Susan), lealdade (Leland) e, finalmente, a história (Xanadu), descobrindo em cada tentativa que a transação humana é a única que sua vasta fortuna não pode concluir.
O simbolismo é o tecido conjuntivo que impede o texto de se desintegrar sob o peso de sua fragmentação. Xanadu, o palácio monumental na Flórida, é talvez o símbolo mais eloquente de todo o texto. Não é uma casa, mas um mausoléu prematuro, um monte de escombros de objetos descontextualizados, colecionados compulsivamente, refletindo a desordem interna de Kane. É a antítese do lar, um cemitério de ambições abandonadas, onde os jardins zoológicos e as estátuas renascentistas se misturam em uma profusão kitsch. O crítico pode ver em Xanadu uma atualização sombria e capitalista da ‘Waste Land’ de T.S. Eliot, um lugar onde nada cresce exceto a solidão.
E então, há 'Rosebud'. A palavra final, a sílaba que Thompson jamais decifra. O significado de 'Rosebud' não reside no objeto físico – o trenó de infância – mas na sua função narrativa. Ele não é a chave para a alma de Kane; é o *significante* da pureza perdida, o momento exato em que a vida de Kane se desviou, quando o garoto inocente foi arrancado da neve e entregue ao banco para ser transformado em um deus da imprensa. É um símbolo de inocência inacessível e da ironia mordaz de que a resposta final jaz nas cinzas da vida do magnata, descartada por empregados indiferentes e ignorada pela máquina de fazer mitos que o filme (e o texto) critica.
O contexto histórico é inescapável. Nascido no limiar da Segunda Guerra Mundial, o texto surge como uma meditação sobre a tirania e a manipulação da informação (a figura de William Randolph Hearst é, obviamente, a sombra projetada), mas também como um comentário amargo sobre a falha da Geração Dourada em sustentar seus ideais democráticos. A morte de Kane, solitária no seu castelo kitsch, é a morte de uma certa América – a América que acreditava que o dinheiro e a influência poderiam substituir a integridade e a conexão humana. A força duradoura do roteiro reside na sua recusa em oferecer consolo. Ele nos deixa não com a verdade sobre Kane, mas com a percepção desoladora de que a vida, mesmo dos grandes homens, é apenas uma série de contradições insolúveis, encerradas na indiferença de um futuro que já começa a queimar os resíduos do passado.
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